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O universo feminino

  • há 1 hora
  • 3 min de leitura

Desde o almoço de hoje, com duas amigas, quando fui instigada a pensar e escrever algo sobre o universo feminino, minha cabeça está fritando, tentando conectar as ideias. Elas estão num turbilhão, meio como esse terrível El Niño que tem sido tão assustadoramente anunciado: um emaranhado de pensamentos e sentimentos se enrodilhando por todos os cantos da minha cabeça, com ventos de 200 km/h.


Uma das coisas mais difíceis para mim é conseguir traduzir em palavras o que estou sentindo ou pensando. Sempre achei a escrita — tanto a literária quanto a de uma simples notícia — a arte mais complexa e bonita de todas. Amo a literatura. Sou fascinada por uma boa frase. Me comovo quando encontro um texto que traduz exatamente algo que eu sinto e gostaria de expressar. Talvez por isso, diante da grandeza da boa escrita, eu me sinta completamente incapaz de escrever qualquer coisa que mereça ser lida. A não ser, claro, as orientações técnicas para meus pacientes e alunos, que, mesmo assim, sempre acho que poderiam ser melhoradas.


Com a idade — ou com o amadurecimento — tenho percebido que cada vez tenho menos certezas. A cada ano me liberto de algumas convicções que já foram muito profundas. E, nesse estado em que me encontro, parece que tenho muito mais a aprender do que a ensinar.


Não me sinto preparada para descrever o universo feminino, porque nem consigo formar um conceito do que ele seja. Então, como uma simples representante do gênero, moradora desse tão vasto lugar, vou me limitar a descrever alguns minutos do meu pequeno mundinho, que entrou em transe desde que me propus a pensar sobre ele, tentando enquadrá-lo, delimitá-lo, colocar nele uma embalagem, um rótulo.


Pois bem…


Hoje vim caminhando até em casa para dar um beijo na minha mãe, que está de passagem por aqui. No caminho, lembrei da sopinha com gostinho de infância que me aqueceu ontem, quando cheguei gelada. Enquanto me deliciava, ia jogando conversa fora com ela e com o marido dela, respondendo qualquer coisa só para não atrapalhar minha concentração em observá-la.


Ela está tão linda. Os cabelos agora bem branquinhos contrastam com aqueles olhos verdes tão expressivos, ainda cheios de juventude e vivacidade. Fiquei pensando no quanto já vejo dela em mim, e no quanto já vejo de nós duas na minha filha — desde as habilidades mais preciosas até as irritantes manias e teimas.


Como ainda olho para minha mãe com curiosidade, tentando desvendar tudo o que ela sentiu e nunca me disse, como enfrentou tudo o que viveu e, ainda assim, preservou essa doçura, essa alegria e essa humanidade no olhar. Não foram poucas as vezes em que me propus a ser exatamente o contrário dela, e hoje me pego fazendo justamente a mesma coisa, talvez até com alguns requintes e aperfeiçoamentos.


Meu universo feminino foi sendo construído por todas as constelações por onde circulei nesses cinquenta e poucos anos: minhas avós, minha mãe, minha filha, minhas amigas, as mulheres que me ensinaram sem perceber, pacientes, professoras, alunas, pessoas que passaram rapidamente pela minha vida, mas deixaram alguma luz.


E, como o próprio cosmos, esse universo continua em expansão, com tudo o que tem direito: buracos negros, estrelas cadentes, supernovas, gravidades invisíveis e todo o resto.


Limitar esse universo a um conceito é uma cilada. E quem achar que finalmente o entendeu talvez tenha entendido justamente o contrário. Porque universos não cabem em definições. Cabem em histórias.

 
 
 

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Produzido por Studio Said

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